Wednesday, August 02, 2006

Forum de Economia da FGV

Nos dias 31 de julho e 01 de agosto a FGV promoveu a terceira edição do Forum de Economia, com a presença de renomados economistas como Yoshiaki Nakano, Luis Carlos Bresser Pereira, Guido Mantega, Rubens Ricupero, Paulo Nogueira Baptista Jr. entre outros. A abertura do evento, ao qual eu estive presente, tinha como tema a Nova Política Macroeconômica. Os outros painéis tratavam dos seguintes temas: "Choque de Gestão", "A idéia de nação como condição do desenvolvimento" e por fim "Câmbio e Desenvolvimento".

Tive a oportunidade de comparecer ao painel de abertura e ao de encerramento, sobre Câmbio. Na minha opinião, o último painel foi o mais acalorado de todos, com os economistas demonstrando seu desconforto em relação à estratégia de crescimento do Brasil. O que se concluiu é que é difícil projetar a situação futura do país a partir de modelos do passado, pois o Brasil jamais passou por uma situação como esta. Ainda estamos atrelados ao trauma da inflação galopante que impede que o Brasil tenha um crescimento comparado ao do Chile (como foi dito na palestra, o "mais asiático dos países latino-americanos"). As discussões foram longas, mas no final o que se concluiu é que, para se tornar competitivo com monstros como China e Índia, é preciso atuar com um câmbio competitivo e investir.

Uma pergunta que todo mundo se faz é: por que o Brasil não cresce como a China? Uma questão abordada por Mauricio Mesquita, economista-sênior do Banco Interamericano de Desenvolvimento e um dos expositores do painel de Câmbio. Daqui em diante deixarei-os com uma adaptação breve do artigo que Mesquita escreveu para a Folha de São Paulo (leia na íntegra em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj3007200613.htm se você for assinante da Folha ou do UOL).

Segundo Mesquita, existem elementos da estratégia de crescimento chinês como a prioridade ao comércio exterior, os altos níveis de poupança e investimento, a relativa estabilidade macroeconômica e a prioridade dada à educação e ao desenvolvimento tecnológico que deveriam ser seguidos pelo governo brasileiro e que são o diferencial de países com crescimento no mínimo impressionantes como a China. Mesquita concorda que não há como negar que as reformas pró-mercado iniciadas em 1978 foram fundamentais para que a China pudesse explorar todo o seu potencial de crescimento. Por outro lado, é evidente que a presença do Estado em áreas como crédito, educação, ciência e tecnologia tiveram e têm um papel importante para viabilizar as elevadas taxas de investimento e absorção de tecnologia que o país apresenta.

Intervir com êxito em uma economia de mercado depende, entre outras coisas, da qualidade das informações e análise econômica que tem o Estado, da sua capacidade de convencer a sociedade, em especial os prejudicados, dos benefícios da intervenção e da capacidade desse Estado de se defender de interesses particulares. Em governos como o chinês, tanto o segundo como o terceiro itens são resolvidos de forma autoritária e dependem da famosa figura do "ditador benevolente".

Ele ainda argumenta que o Brasil precisa criar mecanismos democráticos que ajudem o Estado a melhorar a eficiência de suas políticas em áreas como comércio exterior, crédito, educação, ciência e tecnologia, onde nem sempre o mercado gera a melhor solução. O país precisa abrir e estabilizar a economia, consolidar instituições, racionalizar o gasto público e aumentar o volume e a eficiência do gasto em educação, tecnologia e infra-estrutura. O que o choque chinês muda é o tempo disponível para a implementação dessa agenda. Seja para aproveitar as oportunidades em recursos naturais ou para viabilizar a sobrevivência da indústria é preciso que o país se mova muito mais rápido. Além de "forçar a marcha" de uma agenda conhecida, é preciso repensar a política externa.

É preciso também atuar mais agressivamente em pelo menos duas direções.

  • Primeiro, no sentido de garantir acesso privilegiado aos mercados do Norte, sejam os EUA ou a Europa. Diante das vantagens competitivas chinesas, a indústria brasileira não pode se dar ao luxo de não ter esse acesso, sobretudo com o alargamento da União Européia e a proliferação dos acordos bilaterais dos EUA com quase todo o resto da América Latina.

  • Segundo, no sentido de explorar de maneira mais eficiente os recursos que o país tem. Que o Brasil tivesse sua indústria concentrada no Sudeste na época da substituição de importações, era compreensível. O cenário mudou com a abertura, uma vez que a competição das importações deu maior relevância ao custo dos fatores, em particular ao da mão-de-obra. Mas a mudança levou a um movimento de desconcentração espacial mais tímido do que se poderia esperar. De acordo com o IBGE, o salário médio industrial no Nordeste em 2003 era aproximadamente 50% mais baixo que o do Sudeste e 40% inferior à média do país. Já os salários do Sudeste eram quase quatro vezes mais altos que os chineses. Assumindo que os números não mudaram muito, a transferência para o Nordeste cortaria a diferença salarial em relação à China quase pela metade. Associado a um câmbio mais competitivo e à maior proximidade do Brasil dos mercados americano e europeu, isso colocaria a indústria em condições melhores de competir com a China e de gerar empregos e desenvolvimento regional. É claro que por trás da timidez na desconcentração espacial devem estar problemas como a infra-estrutura precária, o baixo nível de qualificação da mão-de-obra e os problemas que afetam o clima de negócios. A "opção Nordeste", para que seja viável, tem que vir acompanhada de políticas públicas que tratem dessas deficiências e criem condições para que os recursos que estão lá sejam bem aproveitados.

3 comments:

Marcello said...

Cláudia, eu li seu artigo e concordo com o ponto no qual a industrialização deveria avançar para o Nordeste. E claro que acompanhada de um apoio do Estado para preparar as pessoas para este mercado de trabalho. Isto é algo demora uma geração e com certeza trará benefícios ao País a longo prazo. Mas parece não ter um retorno rápido à imagem do Governo. Por isso, acredito faltar vontade política.

Existem outros fatores que também emperram nosso crescimento como:
* infraestrutura para transportes modais (rodoviário, marítimo e ferroviário)
* Portos antiquados e burocráticos;
* Reforma fiscal para permitir uma maior agilidade na criação e fechamento de empresas, bem como a contratação de trabalhadores.

Durante o governo passado, muitas das "regras" para o país se modernizar e globalizar foram seguidas, mas outras foram deixadas de lado. É como jogar futebol com um time completo, técnico, bola, mas sem chuteiras! E ficamos patinando...para marcar um gol!

Anonymous said...

Lembro que meu pai comentava... o Brasil é o país do futuro... Quando chegaremos lá Cláudia??? Gostei de seu artigo

Hermano said...

E nossos "irmãos" argentinos? Não estão crescendo mais que nós? O que eles fizeram que nós brazucas não vimos? Foi o calote que tiveram coragem? O que foi ?