Wednesday, November 01, 2006

Relatório Stern - Mudanças Climáticas e Economia

Foi publicado no jornal inglês GuardianUnlimited , no dia 30/10 um artigo sobre os efeitos que as mudanças climáticas, ocasionados pela emissão de gás carbônico, podem causar na economia mundial, bem como as adaptações que deveríamos fazer para que tais efeitos fossem mitigados. O relatório foi feito por Nicholas Stern (conselheiro do Governo sobre desenvolvimento e mudanças climáticas na economia) e tem sido levado a sério pela comunidade internacional e principalmente pelo governo inglês. Será que ainda poderemos viver do mesmo modo que vivemos atualmente? Quais as consequências e o custo disto? É possível experimentarmos um desenvolvimento de nossas economias baseado num crescimento sustentável?

O relatório

Segundo Stern, estamos vivendo um período de aquecimento global onde o aumento médio da temperatura pode chegar 5ºC devido ao acúmulo excessivo de CO2 na atmosfera. Para se ter uma idéia, os níveis de CO2 eram de 280 ppm na era pré-industrial e hoje 430 ppm. E se continuarmos tocando nossos negócios do mesma forma, teremos algo em torno de 850 ppm num futuro muito próximo. As consequências disto não poderiam ser mais devastadoras, como: enchentes, desertificação, pragas, perdas de safras, cidades litorâneas invadidas pelo mar. Os danos causados atingiriam de 5 a 20% porcento do o consumo mundial. E os países mais pobres sofreriam as piores consequências por não terem uma estrutura apropriada e desenvolvida para enfrentar tais mudanças.

O relatório que levou em consideração os recentes estudos sobre os gases do efeito estufa e verificou que os efeitos econômicos em nossa vida e no ambiente poderá chegar a 20% do PIB nos países mais pobres. Por outro lado, os custos para redução da emissão de gases para se evitar impactos desastrosos poderia ser limitado a 1% do PIB global por ano. As pessoas pagariam um pouco mais por bens de uso intensivo de CO2, mas nossas economias poderiam continuar crescendo fortemente.

Ainda de acordo com o relatório as ações que deveremos tomar necessitaria de uma política global guiada por um entendimento internacional com objetivos de longo prazo e uma forma bem estruturada para cooperação. Estes elementos chave para esta estrutura seriam:

Comércio de Carbono (emissões):

  • Expandir o comércio crescente de emissões ao redor do mundo como uma maneira de promover redução efetiva do custo nas emissões com ações em países nos desenvolvimento.
  • Pontos alvo em países ricos poderiam destinar dezenas de bilhões de dolares por ano para suportar a transição para o caminho do desenvolvimento para baixa emissão de carbono.

Cooperação Tecnológica:

  • Acordos formais e informais podem acelerar a efetividade dos investimentos em inovação ao redor do mundo.
  • Globalmente, deveríamos dobrar o suporte para as pesquisas em energia, e quintuplicar pesquisas relativas ao desenvolvimento de baixa emissão de carbono.
  • Cooperação Internacional na criação de padrões de produtos para estimular rapidamente eficiência no uso de energia.

Ações para reduzir o desflorestamento:

  • A perda de florestas naturais no mundo contribui todo ano nas emissões globais mais que o setor de transporte. O controle do desflorestamento e a sua utilização planejada é caminho para se reduzir as emissões.

Adaptação:

  • Os países mais pobres são os mais vulneráveis às mundanças climáticas. É essencial que as políticas de desenvolvimento contemplem este assunto, e que os países ricos aumentem seu suporte.
  • Um fundo internacional deveria também ajudar com informações sobre o impacto da mundaça climática e pesquisa de novas variedades de grãos, frutas, plantações que sejam mais resistentes aos períodos de seca e enchentes.

Os países em desenvolvimento como China, Índia, Rússia, Brasil por exemplo dependem de muita energia para o crescimento de suas economias. A matriz energética em questão está baseada principalmente no petróleo, gás e carvão e contribuem negativamente para emissões de CO2. Mudar esta matriz significa investir muito dinheiro e tempo em pesquisas e viabilizar alternativas como fontes renováveis e de baixa emissão de CO2. Porém, se isto não acontecer os prejuízos a médio e longo prazo serão catastróficos para os mesmos. Logo, não adianta postergar ou fingir que a mudança climática não nos atingirá. O recado foi dado no relatório, sendo que é preciso começar com ações agora para garantirmos um crescimento econômico sustentável nas próximas décadas. Por fim, ainda podemos ver na mudança climática uma oportunidade para desenvolvermos tecnologias de baixa emissão de carbono. Já possuímos o álcool que emite muito menos CO2 que a gasolina, por exemplo. Estima-se que o mercado para tecnologias de baixa emissão de carbono movimentará pelo menos 500 bilhões de dolares ou mais até 2050.

Veja também:

We must pay now to avoid climate disaster, says Blair

Publication of the Stern Review on the Economics of Climate change

Relatório prevê colapso econômico com aquecimento global

14 comments:

Paulo said...

Enquanto a Europa, Japão e outros países que aderiram ao protocolo de Kyoto desenvolvem planos e projetos como alternativa sustentável, os Estados Unidos parecem fechar os olhos... Analisei os links que você enviou e achei um gráfico realista onde mostra os EUA como os maiores poluidores do mundo!

Marcello said...

Acredito que todos deverão chegar a um consenso pois não há alternativas e ações isoladas para se resolver o problema.

t+

Leonardo said...

Nao acredito que este consenso seja alcançado com o Bush no poder... ele rasgou o tratado de Kyoto e para piorar tem um senador norte americano que acredita que o efeito estufa seja culpa da ira divina...

Marcello said...

Leonardo, entendo perfeitamente seu ponto de vista. Mas, existem muitos americanos que não concordam com a política "esperar para ver", de Bush. Talvez o mais influente porta-voz das preocupações globais com relação ao meio-ambiente seja Al Gore (o ex-vice-presidente).

Marcel said...

Infelizmente, acho que só começaremos a ver alguma mudança quando as consequencias afetarem o bolso dos grandes conglomerados e calro, dos políticos. E não só nos EUA, no mundo todo, inclusive aqui no Brasil. Só com as queimadas, nós produzimos mais CO2 do que todas as indústrias instaladas no país, juntas. E sabemos o lobby poderoso dos fazendeiros e pecuaristas que existe no governo. Está aí o aumento na porcentagem do alcool na gasolina para provar. Só se faz algo p/ preservar o meio-ambiente se isso significar alguma vantagem direta no bolso dos poderosos. Por isso, temo que precisaremos presenciar muitas e muitas catástrofes antes de efetivamente tomarmos uma atitude mais séria. Aproveitando o assunto, recomendo todos a assistir à "Uma Verdade Incoveniente" nos cinemas, estrelado pelo ex-vice presidente americano, Al Gore, que fala exatamente sobre as consequencias do aquecimento global.

Marcello said...

Marcel, se eu entendi o que você disse, é que todos sempre querem levar vantagem sempre. É o jeitinho de sempre. Mas se pudermos ver o sob um outro ângulo, isto é, existe um mercado de de novas tecnologias de baixo-carbono e consequentemente baixo impacto ambiental que podemos tirar proveito. Segundo especialistas é um mercado de bilhões de dolares. Cabe ao governo e a iniciativa privada olharem para isto como uma oportunidade lucrativa e ao mesmo tempo preservando nossas riqueza naturais.

Clau Komamura said...

Marcel e Marcello, vale a pena ver o filme do Al Gore e comprovar que a grande questão para os americanos ainda é: salvar o mundo ou salvar a Economia...

Clau Komamura said...

Para quem ficou interessado sobre o filme, visite o site oficial:

http://www.climatecrisis.net/

Abs

Marcello said...

Claudia, o filme-documentário é muito bom, com fatos e números que não podem ser ignorados por ninguém. Aliás é interessante a analogia que ele faz com o sapo que pula de imediato quando entra na água quente, mas que fica até o último minuto na água se esta for sendo esquentada de maneira uniforme. É o que está acontecendo conosco.

Leonardo said...

Marcello, claro que nao podemos generalizar, mas de que adianta um ex-vice-presidente ser a favor de mudanças, uma vez que nao eh ele quem toma as decisões e a população norte-americana nao esta nem ai para esta questão(como sempre ja que nao se encaixa no estilo American Way of Life), visto o aumento da venda de utilitários na ultima decada...
A atitude de Al Gore é louvavel, ainda mais pq ele tem influencias e tudo mais. Mas falar eh uma coisa, ter pulso e poder para tomar uma atitude é outra... Nao adianta ele assinar algi e vir o bush e rasgar... ninguem vai se opor a ele, ele eh o presidente...

Marcello said...

Infelizmente o American way of life é responsável por um estilo de vida que não é sustentável, principalmente se outras países também o perseguirem. Quanto ao Bush, ele não assinou o protocólo de Kyoto, embora as pressões continuem. Por outro lado, alguns municípios e estados que compõem os EUA se conscientizaram e passaram a incorporar em suas leis medidas pró-meio-ambiente. E acompanhando esta tendência, e oportunidade, a Toyota e Honda estão vendendo muitos carros híbridos (gas+eletricidade) que poluem menos e gastam menos.

[]s

Marcel said...

Só pergunto por que o Al Gore resolveu tomar essa atitude agora e não quando ele era vice-presidente do governo Clinton. Seria oportunismo ?
Falta de poder político ?

Enfim, acho que seria muito mais fácil para ele se fazer ouvir quando estava dentro do governo e não agora. Por sinal, é exatamente o que acontece com o nosso governo: A atual ministra do meio-ambiente, Marina Silva, é uma ambientalista, nascida e crescida na região amazônica, mas como governo pouco fez de efetivo para diminuir a degradação das nossas florestas ou mesmo para incentivar práticas para a geração energética limpa. Por que será que político quando entra no governo esquece tudo aquilo que pregava antes de ser eleito ?

Por falar em Al Gore (se é que tem alguma coisa a ver), li hj no Estadão que o Schzneger (é assim que se escreve ?)vêm tentando se afastar da figura do Bush para não prejudicar sua imagem (a do Schzneger -caramba, que nome desgraçado pra se escrever!!!, inclusive indo contra a péssima política ambiental de Washington, que deu maior liberdade para as indústrias emitirem poluentes na atmosfera. Na Califórnia, os limites ficaram mais rígidos e prometem ficar ainda mais rigorosos até o final da década. Que ironia: Um republicano que conseguiu ganhar a simpatia da população mais esclarecida da Califórnia...vai se entender...

Clau Komamura said...

Política à parte, interesse de se reeleger à parte. Se ninguém falar sobre isso, continuaremos à mercê de uma indústria americana extremamente poluente.

Paulo said...

é interessante salientar algumas coisas! Devemos ficar bastante contentes e particularmente penso que muito esperançosos por esse relatorio ter sido escrito pro Stern, que é autoridade no ramo da economia e da politica internacional! Devemos discutir mais como esse artigo vai ajudar a mudar o cenario atual.

Essa discussão sobre os EUA não assinarem o protocolo de Kyoto deve ser vista com olhar mais critico, não que eu seja favor da politica americana nem tampouco do seu lider "MR Danger", mas os americanos justificam que o Protocolo de Kyoto é uma tentativa desfarçada de reduzir os niveis de produção no país! Seria uma tentaiva de reduzir o poder americano. Tanto é que apesar de não ter assinado alguns estados apresentam suas politicas a favor do meio ambiente.

O momento agora é bastante propicio a uma revolução nessa área ambiental. Deve-se aproveitar a aparição desse artigo para ratificar o valor dessas politicas e dessas iniciativas e como já deixaram claro ai, é necessario que pese no bolso de alguém para que as politicas ambientais tenham exito, então o que falta é definir os direitos de propriedade claramente e deixar que a lógica de mercado resulte por fim numa melhoria pra o meio ambiente a nivel internacional, ou seja, devemos discutir que instrumentos economicos devem ser usados, como devem ser usados .....